sábado, 4 de fevereiro de 2012

O Gato de Botas

"O Gato de Botas" ("Der gestiefelte Kater") apareceu apenas na primeira edição do Kinder- und Hausmärchen de 1812 dos Irmãos Grimm sendo posteriormente suprimido, provavelmente, por suas origens francesas, já que integrou a coletânea de contos de Charles Perrault, publicada muito antes em 1697. Essa supressão do conto na segunda edição dos contos dos Grimm foi realmente uma pena, pois a história do Gato de Botas se difundiu de tal maneira que ganhou inúmeras versões, incluindo adaptações para o teatro, das quais ressalta-se a versão de Ludwig Tieck (disponível no Projekt Gutenberg) de 1797, além de numerosas versões em desenho animado, das quais as aparições na série de filmes do Shrek e na versão mais recente O Gato de Botas, dedicada apenas a essa personagem, são apenas mais algumas visões desse carismático personagem. A tradução apresentada abaixo é baseada no conto dos Grimm publicado em 1812.



O Gato de Botas

Um moleiro tinha três filhos, seu moinho, um burro e um gato. Os filhos deviam moer, o burro, buscar os grãos e carregar a farinha e o gato, livrar-se dos ratos. Quando o moleiro morreu, os três filhos dividiram a herança entre si: o mais velho recebeu o moinho, o segundo, o burro; o terceiro o gato, nada além lhe restou. Então ele ficou triste e dizia para si mesmo: "Eu fiquei com o pior de tudo, meu irmão mais velho pode moer; meu segundo irmão pode cavalgar sobre seu burro; o que eu posso começar com o gato? Deixe-me fazer um par de luvas de pele a partir de seu couro, assim acabo com isso." "Escute - começou o gato, que tinha entendido tudo o que havia sido dito - você não precisa me matar, para conseguir um par de luvas ruins feitas da minha pele, deixe-me apenas fazer um par de botas, para que eu possa sair e deixar-me ver sob outras pessoas, então você vai ser logo ajudado." O filho do moleiro se admirou, que o gato assim falava, porque justo nesse momento passava o sapateiro! Chamaram-no para dentro e deixaram que ele medisse um par de botas para o gato. Quando elas estavam prontas, o gato as calçou, pegou um saco, encheu-o de grãos, mais um cordão em cima, com o qual se podia fechar, então jogou-o nas costas e andou sobre duas pernas, como uma pessoa, da porta a fora. Naquele tempo, um rei, que gostava muito de comer perdizes, governava o pais: porém havia uma falta no reino, e nenhuma perdiz podia ser conseguida. Toda a floresta estava cheia delas, mas elas eram tão tímidas, que nenhum caçador conseguia alcançá-las. O gato sabia disso e pensou em fazer suas coisas de um jeito melhor; quando ele entrasse na floresta, abriria o saco, espalharia os grãos afastados, mas deixaria o cordão na grama e ele conduziria para trás de um arbusto. Lá ele mesmo se esconderia furtivamente e espreitaria. As perdizes logo vieram correndo, encontraram os grãos e uma atrás da outra saltaram para dentro do saco. Quando já havia um bom número ali dentro, o gato puxou o cordão, enrolou e fechou-o; então, jogou o saco nas costas e foi direto para o castelo do Rei. O sentinela gritou: "Alto! Onde vai?" – "Até o rei" respondeu o gato rapidamente. - "Você é maluco, um gato até o rei?" - "Apenas deixe ele ir, disse um outro, o rei tem sempre muito tempo, talvez o gato o divirta com seus rosnados e disparates." Quando o gato chegou à frente do rei, fez uma reverência e disse: "Meu Senhor, o Conde, daí ele mencionou um longo e pomposo nome, permite-se recomendar ao rei e enviá-lo estas perdizes aqui, que ele tem agora mesmo presas nessa armadilha". O rei admirou-se com as belas e gordas perdizes, não se continha de alegria e ordenou que colocassem no saco do gato tanto ouro de sua câmara dos tesouros, quanto ele pudesse carregar: "Leve isso ao seu senhor e agradeça-o ainda muitas vezes pelo seu presente."

O pobre filho do moleiro, porém, estava sentado em casa à janela, apoiava a cabeça na mão e pensava, que ele agora tinha desperdiçado seus últimos centavos para as botas do gato, e o que isso poderia lhe trazer de melhor. Então, entrou o gato, lançou o saco das costas, desamarrou-o e espalhou o ouro na frente do moleiro: Aí você tem algo pelas botas! O Rei permitiu também lhe cumprimentar e dizer muito obrigado". O moleiro estava feliz com a riqueza, sem que ele ainda pudesse perceber, como ela tinha chegado. Mas o gato, enquanto tirava suas botas, contou-lhe tudo, então lhe disse: "Agora você tem mesmo dinheiro suficiente, mas não pode ficar assim, amanhã vou calçar minhas botas de novo e você deverá ficar ainda mais rico. Eu também disse ao rei que você é um Conde". No outro dia foi o gato, como ele havia dito, com suas botas bem vestidas para a caçada, e trouxe ao rei uma farta presa. Assim iam todos os dias, e o gato trazia todo dia ouro para casa, e era tão querido pelo rei, que lhe era permitido ir para lá e para cá e se esgueirar pelo castelo, por onde quisesse. Uma vez, estava o gato na cozinha do rei e se aquecia perto do fogão, então veio o cocheiro e praguejou: "Eu queria que o rei junto com a princesa estivessem nas mãos do carrasco... Queria ir à taberna e uma vez beber e jogar cartas, mas daí devo levá-los de carruagem para passear à beira mar..." Assim que o gato ouviu isso, foi furtivamente para casa e disse para o seu senhor: "Se você quiser se tornar um conde rico, venha comigo para o mar e se banhe lá." O moleiro não sabia de nada, do que deveria dizer, porém seguiu o gato, foi com ele, despiu-se, completamente nu, e pulou na água. Mas o gato pegou suas roupas, levou-as além e as escondeu. Mal ele tinha feito isso, veio o rei até ali conduzido; o gato começou imediatamente a se lamentar infeliz: "Ah! Todo piedoso rei! Meu senhor se banhava aqui no mar, então veio um ladrão e lhe roubou as roupas, que jaziam na margem, agora está o Senhor Conde na água e não pode sair, e se ele ficar lá por muito tempo, irá se resfriar e morrer." Como o rei ouvia isso, fez uma parada e um de seus homens deveria disparar de volta e buscar uma das roupas do rei. O Senhor Conde vestiu as esplendorosas roupas, e porque o rei de qualquer modo estava afeiçoado por ele, por causa das perdizes, que ele pensava tinham lhe sido apanhadas, assim deveria o conde se sentar junto com ele na carruagem. A princesa também não estava zangada com isso, pois o Conde era jovem e bonito, e ele agradava-a muito bem.

O gato, porém, estava à frente e chegou a uma grande campina, onde estavam mais de cem pessoas e preparavam o feno. "Hei, pessoal, de quem é esse campo?" perguntou o gato. - "De um grande feiticeiro." - "Escutem, agora o rei passará brevemente por aqui, se ele perguntar, a quem pertence esse campo, assim respondam: ao Conde; e se vocês não fizerem isso, vão todos apanhar até a morte." - Em seguida, o gato foi mais longe e chegou a um campo de grãos, tão grande, que ninguém deixaria de notar, lá haviam mais de duzentas pessoas e cortavam o centeio. "Hei, pessoal, de quem são esses grãos?" - "Do feiticeiro" - "Ouçam, agora o rei passará por aqui brevemente, se ele perguntar, a quem pertence o centeio, assim respondam: ao Conde, e se vocês não fizerem isso, vão todos apanhar até a morte." - Finalmente chegou o gato a uma esplendorosa floresta, lá estavam mais de trezentas pessoas, que cortavam grandes carvalhos e faziam lenha. - "Hei, pessoal, de quem é essa floresta?" - "Do Feiticeiro" - "Ouçam, agora o rei passará por aqui brevemente, se ele perguntar, a quem pertence a floresta, assim respondam: ao Conde, e se vocês não fizerem isso, vão todos ser mortos." O gato foi ainda além. As pessoas o examinavam e porque ele parecia tão admirável, e como se uma pessoa de botas por lá passasse, elas o temiam. Ele chegou logo ao castelo do Feiticeiro, entrou e apresentou-se audaciosamente diante dele. O Feiticeiro o olhou com desdém e perguntou-lhe, o que ele queria. O gato fez uma reverência e disse: "Ouvi dizer, que você de acordo sua vontade poderia se transformar em qualquer animal; no que concerne a um cachorro, raposa ou também um lobo... Nisso eu provavelmente acreditaria... Mas num elefante! Isso me parece muito impossível, e por isso eu vim aqui e para me surpreender a mim mesmo". O Feiticeiro disse orgulhoso: "Isso para mim é uma ninharia," e num piscar de olhos se metamorfoseou num elefante; "Isso é muito, mas também em um leão?" - "Isso também não é nada," disse o Feiticeiro e parou como um leão em frente ao gato. O gato ficou chocado e gritou: "Isso é inacreditável e jamais ouvido. Algo assim, nunca me veio, nem em sonhos nem em pensamento; mas ainda mais do que todo o resto seria se você pudesse se transformar em um animal tão pequeno quanto um rato. Você pode certamente mais do que qualquer outro feiticeiro do mundo, mas isso seria demais." O Feiticeiro estava tão cordial com as palavras doces e disse: "Oh, sim, querido gatinho, isso eu consigo também" e pulou como um rato por todo o cômodo. O gato foi atrás dele, prendeu o rato com um pulo e o devorou.

Mas o rei passeava mais longe com o Conde e a Princesa, e chegou a um grande campo. "A quem pertence o feno?" perguntou o rei - "ao Senhor Conde" - gritaram todos, como o gato havia ordenado. – "O senhor lá tem um belo pedaço de terra, Senhor Conde," ele disse. Depois chegaram a um grande campo de centeio. "Hei, pessoal, a quem pertence o centeio?" - "ao Senhor Conde." - "Ai! Senhor Conde! grandes e belas terras!" - Daí para a floresta: "Hei, pessoal, a quem pertence essa madeira?" - "Ao Senhor Conde." - O rei se maravilhou ainda mais e disse: "O senhor deve ser um homem rico, Senhor Conde, eu não acredito, que eu tenha uma tão esplendorosa floresta." Finalmente chegaram ao castelo, o gato estava sobre as escadas, e quando o carro parou abaixo, ele saltou, abriu a porta e disse: "Senhor Rei, o Senhor chegou aqui ao castelo de meu senhor, do Conde, essa honras o farão feliz por toda sua vida." O rei desembarcou e maravilhou-se com o esplendoroso prédio, que era quase maior e mais bonito que o seu castelo; o Conde, porém, conduziu a Princesa escada acima e pelo salão, que cintilava a ouro e pedras preciosas.

Assim, a Princesa foi prometida ao Conde, e quando o rei morreu, o Conde foi rei e o gato de botas, entretanto, Primeiro Ministro.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Fim de ano...

Mais um ano chegando ao fim e já com alguns projetos para o ano que vem! Esse ano pude concluir meu mestrado, intitulado The Lord of the Rings e a estética da finitude e cujo texto completo se encontra disponível no acervo eletrônico da Unesp. Para o ano que vem, começo um novo projeto de pesquisa e uma nova etapa da minha vida acadêmica com meu doutorado, intitulado A espada e a luneta: a descoberta do mundo entre o ordinário e o maravilhoso. Segue meu projeto abaixo e um ótimo 2012 a todos!


terça-feira, 29 de novembro de 2011

A música alemã: de Wagner a Wir sind Helden - Parte 2

Só é possível ter uma noção da música pop alemã à partir dos anos de 1960 e 1970. Em meu curso, depois de "aterrorizar" os alunos com Schönberg e Stockhausen, apresentei um grupo que se dizia inspirado, senão "discípulos" de Stockhausen, que também atuou como um dos precursores da música eletrônica. Esse grupo, gravou também canções em inglês, o que os tornou mundialmente conhecidos, e ele é nada mais nada menos que Kraftwerk, nome que significa "usina de força". Imitando robôs, eles começam a ressaltar um aspecto que, pelo menos na música pop acabou se sobrepondo à própria música, que é o aspecto visual do grupo. Além disso, são considerados os precursores e inspiradores da música eletrônica, tendo seguidores como os franceses do Daft Punk:



Daqui para frente não tenho muito mais a dizer, deixo apenas alguns exemplos da música alemã, cantada em alemão, que é bem variada e não se resume ao bem conhecido Rammstein.
















Essa última música é um clássico do rock da antiga Alemanha Oriental. Parece uma música sobre superação e o refrão diz:

Sobre sete pontes, você deve passar,
A sete anos sombrios sobreviver.
Sete vezes você virará cinzas,
Mas uma vez também, uma luz brilhante.

sábado, 12 de novembro de 2011

A música alemã: de Wagner a Wir sind Helden - Parte 1

Conforme escrito em meu "Sobre mim", A música alemã: de Wagner a Wir sind Helden foi uma aula dada por mim como parte do estágio de licenciatura em língua alemã. Nosso grupo resolveu que, em vez de se preocupar com a língua, iríamos falar sobre a cultura alemã, introduzindo uma ou outra curiosidade linguística conforme fosse conveniente. Nossas aulas deram conta de um amplo espectro da cultura e da história alemãs durante o século XX, abrangendo tanto fatos históricos, como as duas Grandes Guerras e a República de Weimar, quanto culturais, a saber, o cinema alemão - que figurava entre os mais importantes do início do século -, o teatro de Brecht e a música, parte que coube a mim.

O título escolhido abrange um pouco mais que o século XX, tomando como início a obra de Wagner e chegando até o século XXI com a música pop cantada em alemão. A pretensão dessa aula não era dar a história detalhada sobre cada compositor, mas sim oferecer um panorama amplo da variedade da música  nos territórios de língua alemã durante esse período.

Em fins do século XIX, após a Unificação em 1871, a música nos territórios de língua alemã encontrava-se dividida em duas vertentes, ou antes colocada sob o signo de dois grandes mestres: Johannes Brahms e Richard Wagner. O primeiro residia em Viena, local considerado centro de uma tradição musical e "capital da valsa", por onde passaram o que na história da música se chama de Primeira Escola de Viena, nome que se refere aos compositores Joseph Haydn, Wolfgang Amadeus Mozart e Ludwig van Beethoven. A música de Brahms era considerada mais conservadora, sendo, porém, segundo Otto Maria Carpeaux, aquela que portava o verdadeiro espírito alemão, herdado de Johann Sebastian Bach entre outros.

Contudo, era Wagner que produzia uma música ideologicamente bastante nacionalista, com suas óperas que exaltavam a tradição e herança pagãs do antigo mundo germânico. Do ponto de vista composicional, Wagner também era um experimentador, utilizando-se bastante do cromatismo e desafiando as fronteiras da música tonal. Eis abaixo, uma cena de Tristan e Isolde, em uma encenação modernizada:


O segundo compositor que destaquei, foi o judeu-austríaco Arnold Schönberg, que, antes de se mudar para os E.U.A., trabalhou no conservatório de Berlin. Auto-didata e conhecedor de um vasto repertório, Schönberg rompeu de vez com a música tonal e lançou uma nova forma de composição: a música dodecafônica ou serial. É uma música bastante diferente e dissonante aos nossos ouvidos, considerada como o expressionismo na música. Sua obra, como um todo, é marcada também por importantes escritos teóricos, com destaque para o Harmonielehre (em português Harmonia, publicado pela editora Unesp). Por fim, Schönberg e seus discípulos mais proeminentes, Alban Berg e Anton Webern, formam o que é conhecido como Segunda Escola de Viena:


Ao romper com o tonalismo, Schönberg abriu caminhos para uma música nova, cujas experimentações foram se tornando cada vez mais radicais. No século XX, com as novas tecnologias, a possibilidade de gravação e reprodução da música por diversos meios, fez com que a música também se desenvolvesse sob diversas formas. Em alguns casos, como no jazz - tipo de música bastante tocado durante a República de Weimar - a música fugia da monotonia, que poderia ser gerada pelas gravações, através da improvisação. Em outros, os próprios meios eletrônicos e de gravação eram usados para compor. O maior expoente dessa música de vanguarda é Karlheinz Stockhausen, que merece dois exemplos bastante diversos de sua música:


A variedade da obra de Stockhausen pode ser contemplada quando ouvimos a peça acima e a obra Stimmung, uma obra somente vocal, lembrando os madrigais e motetos renascentistas, composta de vários "modelos" (partes) e que possui uma certa abertura à improvisação dos intérpretes:


Assim finalizo a parte da música erudita e de vanguarda. No próximo post passamos à música pop alemã, dos anos de 1970 até hoje.

domingo, 6 de novembro de 2011

Berlim: entulho e cinzas

por Prof. Dr. José Pedro Antunes
Unesp - Araraquara

Para acompanhar a leitura de “Guerra Aérea e Literatura”, de W. G. Sebald (Cia. das Letras, 2011), percorro algumas séries de fotos de Berlim (abril/maio, 1945) que a revista Der Spiegel on-line disponibiliza. Já no título de uma delas, “Berlin in Schutt und Asche”, duas palavras do vocabulário da literatura do pós-guerra: entulho e cinzas. Para escorar seu desconforto, esses autores, ex-combatentes, buscaram uma zona de conforto, digamos assim, numa sintaxe cristalizada, elegendo um modelo preferencial: o realismo do século XIX. Sem atentar para seus equívocos de base. Ou, como quer Peter Handke, a combater o mal com a mesma linguagem que o produziu.
Foto 1: (2 de maio, capitulação da cidade): o que restou do Reichstag. (O número 7 da Coleção Folha Grandes Arquitetos, dedicado ao autor do projeto, Norman Foster, traz belas fotos do edifício, hoje, restaurado e ampliado.)

Foto 2 (abril/maio): o soldado russo observa, cruz de ferro no peito, o corpo de um alemão que tombara em combate no centro da cidade.

Foto 3: no texto que a acompanha, um outro verbete dos debates do pós-guerra: “Trümmer” (escombros). Daí, “Trümmerstadt” (cidade de escombros) ou “Trümmerliteratur” (literatura de escombros). E, claro, “Trümmerfrauen” (mulheres de escombros). Quem já não as terá visto em fotos ou filmes americanos da época? Em “Ilusão Perdida”, o piloto americano (Montgomery Cliff), engajado no abastecimento do setor ocidental sitiado, se apaixona na por uma delas. Vale lembrar que o termo “Luftbrücke” (ponte aérea) foi cunhado para designar as operações dos pilotos americanos, tendo se perpetuado no vocabulário da aeronáutica. Na falta absoluta de homens em idade produtiva, mutirões de mulheres empreenderam as tarefas da reconstrução, antecipando-se, por força das circunstâncias, à emancipação defendida pelo feminismo programático de duas décadas depois.

Foto 4 (anterior a 23 de maio): pessoas buscam passagem por entre os montes de entulho que inviabilizam a Stallschreiberstrasse. De onde terão saído e para onde seguiriam em meio à urbe devastada?

Foto 5: a Potsdammerbrücke arruinada. (A ponte que tantas vezes atravessei em janeiro de 1994. Ali perto, a editora Langenscheidt, um nome que rebrilha amarelo-ovo na memória afetiva do germanista brasileiro, por conta do dicionário, que, há décadas, solitário, heróico, lhe oferece luzes e alguns problemas com os usos lusitanos.) Numa das pontes adiante, idêntica, Wim Wenders filmou a sequência de “Asas do Desejo”, na qual os protagonistas, anjos, assistem um homem à morte depois de um acidente.

Foto 6: por volta do dia 9 de maio, o Spittelmarkt ainda fumegante, a cidade marcada pelos ataques aéreos dos aliados.
Foto 7: a história contada pelos vitoriosos. Difícil saber o que realmente achavam ter conquistado, mas os soldados russos elegeram como pano de fundo, para o seu júbilo viril, a Siegessäule (Coluna da Vitória), hoje amplamente conhecida como símbolo da comunidade gay berlinense.

Foto 8: as ruínas da Neue Reichskanzlei, símbolo de poder transformado em símbolo da derrocada.

Fotos 9 e 10: a cidade arrasada, tal como foi vista por aqueles que, dias depois, criaram coragem para sair dos porões e abrigos subterrâneos, onde se amontoaram, como ratazanas acuadas, por semanas intermináveis. Ao sair, temiam os soldados soviéticos, que, nos dias que se seguiram, passaram a abastecê-los com alimentos.



Com o título em alemão, acima mencionado, o leitor interessado encontrará acesso a esta e a outras séries de fotos do período. Em “Guerra Aérea e Literatura”, W. G. Sebald realiza a tarefa da qual, como ele denuncia, a literatura alemã do pós-guerra terá se mostrado incapaz: conferir materialidade à destruição total de grande parte das cidades alemãs e revelar a exata dimensão do horror, do ensandecimento vivido pelos sobreviventes. Assunto para uma resenha mais adiante.   

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Noites de inverno são tempos para os contos dos Grimm


por Matthias Heine – 29.10.2010

Os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm registraram durante século XIX todos os contos de fadas que eles ouviram. Felizmente, caso contrário, haveria muito menos para se contar.

Por gerações o mais famoso contador de histórias da Alemanha foi reconhecido sobretudo por seus méritos na área da linguística. Gerações de germanistas inteiras precisaram de ainda 100 anos para concluir, sozinhos, apenas o "Dicionário de Alemão", que, no momento da morte de Jacob Grimm em 1863 já estava completo até a letra F.

Porém, os Grimm não se tornaram mundialmente famosos através de seu dicionário, mas sim através de sua coleção Contos para o Lar e para as Crianças, que, supostamente, foram-lhes confidenciados da boca do povo. Ela não foi a primeira de seu tipo: já em 1782, Johann August Musäus tinha publicado seus Contos populares dos Alemães e encontrado rápidos copiadores.

Contudo, nenhum desses livros teve o efeito dos contos dos Grimm. Traduzida em 160 línguas, a coletânea é - ao lado da Bíblia - de longe, o livro mais difundido e lido do mundo. Agora mesmo chega aos cinemas um novo desenho animado da Disney, que é uma variação do conto "Rapunzel" dos Grimm.

É inacreditável que ninguém tenha se interessado por isso antes do surgimento dos dois volumes em 1812 e 1815. O editor Georg Reimer deixou os 350 exemplares não vendidos do segundo volume serem novamente triturados e reaproveitados como matéria prima. O sucesso começou por uma via indireta, através da Inglaterra: lá, Edgar Taylor, em 1823, publicou uma tradução dos 50 contos mais simples e que se fixam rápido na memória, que foram vendidos freneticamente.

Como se dois grandes feitos como o Dicionário e os Contos já não bastassem, os irmãos fundaram, além disso, a pesquisa científica da língua alemã, com edições filologicamente exatas de textos da Idade Média, com uma Coletânea de Sagas e com seus trabalhos de gramática.

Essa produtividade violenta é explicável através de um fenômeno que hoje está amplamente em extinção: a ética de trabalho protestante. Os Grimms eram descendentes de uma família de Cristãos Evangélicos Reformados, cujos antepassados, desde a comunidade rural até o funcionalismo público tinham trabalhado muito.

Nesse mundo, o trabalho era como serviço religioso, e o sucesso alcançado através do esforço era como um sinal de que o olho do Senhor repousava misericordiosamente sobre o bem sucedido.

A relação dos irmãos permaneceu bem estreita durante toda a vida; até a juventude, eles deviam dividir uma mesma cama. Mas também quando Wilhelm casou-se em 1825, a ligação não se rompeu. Jacob escreveu em 17 de dezembro de 1859 a um colega: "ontem, dia 16, às 3 horas da tarde, Wilhelm, a metade de mim, morreu. É maravilhoso, que ele ja tenha terminado até a letra D."




Fonte: http://www.welt.de/kultur/literarischewelt/article11784577/Winterabende-sind-die-Zeit-fuer-Grimms-Maerchen.html

Quando estive na Alemanha, tive que fazer um pequeno seminário sobre um tema qualquer. Então escolhi os Grimm e dei sorte de achar esse texto, com várias informações interessantes, como o número de línguas em que os seus contos foram traduzidos e a ética de trabalho protestante! Quando apresentei o seminário era inverno lá... portanto, uma boa época para um conto dos Grimm!

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Professores nativos vs. professores brasileiros

Observando o mercado, alguns alunos e suas expectativas, notei que os olhos de alguns donos de escola ou mesmo dos alunos brilham só de pensar em ter aulas com um professor nativo, ou alguém que morou algum tempo fora, geralmente de au pair. Enfim, daí surge a questão: Será que eles são/serão melhores professores?

A primeira pergunta a ser feita deveria ser: eles são professores? Sim, pois basta pensar em si mesmo como falante de português: você saberia transmitir todos os conhecimentos necessários para o domínio da língua para um estrangeiro? Ou mesmo, saberia explicar português para um brasileiro?

Pois chegamos a resposta, um professor nativo de língua estrangeira deve, antes de tudo, ser um professor, conhecer a língua e saber explicá-la de forma clara e inteligível, mesmo que em seu idioma nativo. Contudo, não é isso que podemos ver em várias escolas de idiomas (leia-se as escolas menores). Muitas vezes, o professor é algum brasileiro que morou fora do país por um tempo e ensina o idioma estrangeiro, ser ter sequer estudado para ser professor de língua. Idem para o professor nativo. O que decorre daí são vários problemas de dúvidas não solucionadas e até um possível choque cultural.

Citando um exemplo de um problema comum: é difícil para um alemão explicar o que são casos para um falante de português. O assunto em questão é, na verdade, difícil de explicar até mesmo para um professor brasileiro, que teve primeiro que estudar o conceito de caso e encontrar uma forma própria de entendê-lo para depois retransmiti-lo. Assim, podemos verificar os seguintes problemas com professores nativos, que não estudaram para ser professores (ponto muito importante):

  • Eles podem não entender as dúvidas dos alunos, caso não conheçam a fundo a língua materna deles;
  • Por não entenderem os alunos, podem ser rígidos demais, o que desestimula o aprendizado;
  • Criam pressupostos que não existem, visto as línguas serem muito diferentes, isto é, pensa que o aluno deve saber algo intuitivamente, mas que não faz sentido em sua língua materna;
  • Não dominam formas de transmitir o conhecimento e, no caso de migrantes que moram há muito tempo no país, prendem-se a velhas formas de aprendizado.

Há também aqueles que moraram um bom tempo no exterior e se aventuram a ensinar a língua, mas também não estudaram para ser professores. Nesse caso deve-se atentar para o fato de que:

  • Eles, na maior parte das vezes, não aprenderam a norma culta da língua;
  • Também não dominam formas de ensinar;
  • Não possuem o conhecimento adequado, caso o aluno queira atingir altos níveis de proficiência.

Mas devemos citar também as vantagens de tais "professores", tais como:

  • Transmitir uma vivência cultural do país estrangeiro;
  • Estar mais acostumado com o falar coloquial (gírias, etc.)
  • Entender a cultura e o modo como se dão as relações inter-pessoais no país estrangeiro;
  • No caso de professores nativos, ter uma pronúncia com menos sotaque brasileiro (embora possa possuir uma pronúncia dialetal um tanto confusa, que se desvia da norma padrão).

Entretanto, é necessário valorizar o profissional que realmente estudou para ser professor da língua, o qual nem sempre possui essa vivência no país estrangeiro. Contudo, se for um profissional bem preparado, ele:

  • será alguém bem qualificado para tirar quaisquer dúvidas do aluno e entender a origem dessas dúvidas, especialmente por ter um conhecimento aprofundado da língua materna do aluno;
  • geralmente, terá um conhecimento da cultura erudita construída através da língua alvo, ou seja, sua literatura, arte, história, etc.
  • será um professor de verdade, alguém preparado não só com os conhecimentos da língua, mas também com os métodos para transmiti-la.
Finalizando esse post que já se alongou bastante, gostaria de ressaltar que não importa tanto a experiência no exterior ou o fato de o professor ser ou não falante nativo da língua. O que realmente importa é que ele seja um professor, instruído e capacitado para isso!