quarta-feira, 25 de maio de 2011

Amor de mãe - Heinrich von Kleist

Mutterliebe
Zu St. Omer im nördlichen Frankreich ereignete sich im Jahr 1803 ein merkwürdiger Vorfall. Daselbst fiel ein er toller Hund, der schon mehrere Menschen beschädigt hatte, über zwei, unter einer Haustür spielende, Kinder her. Eben zerreißt er das jüngste, das sich, unter seinen Klauen, im Blute wälzt; da erscheint, aus einer Nebenstraße, mit einem Eimer Wasser, den sie auf dem Kopf trägt, die Mutter. Diese, während der Hund die Kinder losläßt, und auf sie zuspringt, setzt den Eimer neben sich nieder; und außerstand zu fliehen, entschlossen, das Untier mindestens mit sich zu verderben, umklammert sie, mit Gliedern, gestählt von Wut und Rache, den Hund: sie erdrosselt ihn, und fällt, von grimmigen Bissen zerfleischt, ohnmächtig neben ihm nieder. Die Frau begrub noch ihre Kinder und ward, in wenig Tagen, da sie an der Tollwut starb, selbst zu ihnen ins Grab gelegt.

Amor de mãe
O notável incidente aconteceu em Saint-Omer ao norte da França no ano de 1803. Um cachorro louco, que já tinha machucado outras pessoas, atacou duas crianças que brincavam na porta de casa. No exato momento em que ele dilacera a mais jovenzinha, que rola em sangue sob suas garras, surge, então, de uma rua paralela, carregando um balde de água sobre a cabeça, a mãe. Esta, enquanto o cachorro soltava as crianças e avançava sobre ela, colocou o balde de lado; e, incapaz de fugir, decidiu, pelo menos, enfrentar a fera. Agarrou o cachorro, com os membros enrijecidos pela raiva e pela sede de vingança: ela o estrangulou e caiu ao seu lado, impotente, ferida por uma violenta mordida. A mulher ainda enterrou suas crianças, mas, em poucos dias, estava ela própria deitada ao seu lado na sepultura, pois morreu de raiva.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Se os tubarões fossem homens - Bertolt Brecht



       – Se os tubarões fossem homens – perguntou ao Senhor K. a filhinha de sua hospedeira –, eles seriam, então, mais gentis com os peixinhos?

       – Seguramente – ele disse. – Se os tubarões fossem homens, eles construiriam no mar imensas caixas para os peixinhos, com uma porção de alimentos dentro, tanto de origem vegetal quanto animal. Eles cuidariam para que as caixas tivessem sempre água fresca, e, sobretudo, tomariam todas as medidas sanitárias, quando, por exemplo, um peixinho machucasse a nadadeira, então seria imediatamente feito um curativo, para que não deixasse os tubarões antes do tempo.

       – Para que os peixinhos não ficassem tristes, existiria, de vez em quando, grandes festas na água; pois peixinhos contentes são mais saborosos que os tristonhos.

       – Também haveria, naturalmente, escolas nessas grandes caixas. Nessas escolas, os peixinhos aprenderiam, como se nada nas gargantas dos tubarões. Eles precisariam, por exemplo, de Geografia, para que eles pudessem encontrar os grandes tubarões, que estivessem preguiçosamente encostados por aí. A coisa mais importante, naturalmente, seria a educação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados, que é maior e mais bonito, quando os peixinhos se sacrificam espontaneamente, e eles todos deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo, quando eles dissessem que providenciariam um belo futuro. Seria ensinado aos peixinhos, que esse futuro apenas estaria seguro, se eles aprendessem obedientemente. Os peixinhos deveriam ter cuidado principalmente com as inclinações vulgares, materialistas, egoístas e marxistas, e denunciar imediatamente, se algum deles revelasse tais inclinações.

       – Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente conduziriam guerras uns contras os outros, para conquistar as caixas e os peixinhos estrangeiros. As guerras seriam levadas a cabo por seus próprios peixinhos. Eles ensinariam aos peixinhos que entre eles e os peixinhos de outros tubarões haveria uma diferença gigante. Os peixinhos, eles proclamariam, são conhecidamente mudos, mas eles silenciam em línguas bem diferentes e não poderiam entender uns aos outros. Cada peixinho, que matasse na guerra um par de outros peixinhos, peixinhos inimigos, que silenciam em outras línguas; seria condecorado com a Ordem do Mar das Algas e conferido o título de Herói.

       – Se os tubarões fossem homens, também haveria entre eles, naturalmente, uma arte. Haveria belas figuras, nas quais seriam representados os dentes dos tubarões em cores esplendorosas, e suas gargantas como finos jardins dos prazeres, nos quais se deixariam correr com toda pompa.

       – O teatro no fundo do mar mostraria como peixinhos corajosamente heroicos nadariam para as gargantas dos tubarões, e a música seria tão bela, que os peixinhos, sob suas notas, a frente da pequena orquestra, fluiriam sonhadoramente, envolvidos nos pensamentos mais agradáveis, para as gargantas dos tubarões.

       – Também haveria uma religião, se os tubarões fossem homens. Eles ensinariam, que os peixinhos só começariam a viver, de fato, dentro das barrigas dos tubarões.

       – Aliás, parariam com a história, como é hoje, de que todo peixinho é igual. Alguns deles se tornariam autoridades e seriam colocados sobre os outros. Os um pouco maiores poderiam até devorar os menores. Isso seria bem agradável aos tubarões, pois então eles poderiam receber com mais frequência petiscos mais gordos para devorar. E os maiores cargos ocupados pelos peixinhos iriam cuidar da ordem entre eles, tornando-se professores, oficiais e engenheiros de construção da caixa.

       – Resumidamente, haveria então uma cultura no mar, se os tubarões fossem homens.